Lua de Sangue.
Não sabia explicar o que acontecia. Não lembrava quando e onde isso tudo havia começado. Tinha apenas algumas lembranças, como flashes, como fotografias instantâneas na sua mente. Por sua cabeça vagavam algumas lembranças daquele passeio na mata, do acidente, da mordida. Mas não sabia que isso tinha alguma relação, nem se havia sido verdade ou […]
Pequeno Conto de um Amor Literalmente Cego.
Sem querer soar irônico, mas foi realmente amor a primeira vista. Pelo menos para Renato, já que Ana havia perdido a visão na infância, graças a uma mãe descuidada e uma panela de óleo quente. Há anos ela tentava um transplante, mas a fila de espera era enorme e as chances de um doador compatível […]
O Pescador de Sonhos.
Um banco e uma praça, ambos de frente para o mundo. O banco é testemunha da solidão alheia que vem e passa nas pernas apressadas das mulheres e homens de agora. É um pequeno centro de todas as coisas onde se pode ouvir e sentir a turbulência em forma de buzina, em forma de vozes […]
Conjecturas Desimportantes.
Passos levam sempre a um lugar. Quem a guiava era o léu. Às vezes deixava-se ir, pois o que realmente queria era estar indo, e não chegar. A moça chamava-se Sara. Ela tinha um sobrenome belo, contudo, não gostava de dizê-lo, tão pouco que o dissessem — achava-o feio. Por isso Sara apenas. Somos um todo, […]
Bêbados, prostitutas, o gordo e eu.
Segurei o copo de cerveja alguns instantes no ar e olhei para os outros, que estavam na mesa comigo, antes de derramar um pouco na boca. A cerveja desceu amarga e gelada. Despreocupado, lancei meu olhar em volta.
Na minha frente uma mulher falava alto, quase aos gritos em alguns momentos. Junto com ela, mais duas […]
Beco sem saída.
A jornada de Sónia havia, finalmente, chegado ao fim. Valera-lhe o mesmo de sempre, mas não devia queixar-se, sabia de cor o fim do seu trabalho: manter-se viva e palidar as incertezas tão certas que a acompanhavam ao longo da sua biografia. Então meteu-se no autocarro, e pôs-se logo a conversar qualquer coisa com uma […]
o bêbado e o desequílibrio.
ele era um bêbado. não que essa fosse a única categoria pra enquadrá-lo, só que termos feito cidadão de terceiro mundo ou latino-americano morto de fome não vinham à mente quando se sentia o hálito podre de cachaça e cárie de joão.
sim, esse era o seu nome. joão-bobo, joão-ninguém. ou joão-de-barro, como a ave ardilosa […]
Cifra Negra.
Brasil é um país de merda mesmo. Só tem ladrão. Se você vê um neguinho te olhando de esguelha, pode contar que o malandro já está pensando por quanto pode vender aquele teu relógio que sua namorada lhe deu no natal. E essa merda aí.
Mas não na minha loja. 12 anos como fiscal de salão, […]
PARA VOCÊ SER EU.
Para você ser eu, antes de qualquer coisa, pegue uma caneta bic azul, mas azul e não preta, porque nunca gostei de letras escuras. Caso não tenha papel, escreva minha linha da vida na mão, meu nome e as dicas que vou te dar.
Em primeiro lugar, para você ser eu, nasça grávida do verão e […]
Eu não quero mais brincar.
“Nunca conheci quem tivesse levado porrada
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo (…)
Ó príncipes, meus irmãos.
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?”
(”Poema em Linha Reta” - Fernando Pessoa/Álvaro de Campos - 1930)
Eu podia encontrar um amigo no botequim na sexta-feira à noite para jogar conversa fora, e eu podia […]
Obina.
Obina na minha casa
Qual não foi minha enorme surpresa, quando na tarde de segunda-feira, enquanto via a edição da noite do SPTV, me deparei com a seguinte notícia, na voz de Carlos Tramontina:
- O Palmeiras acaba de anunciar a contratação de Obina, do Flamengo!
Antes de minha risada cessar, eis que toca minha campainha. Espio pelo […]
Na Parede.
Já era cinco da tarde e o sangue ainda não havia secado.
Na minha garganta ainda havia aquele resto de saliva com gosto do café de duas horas atrás. Os ponteiros do meu relógio de pulso brilhavam escondidos dentro do bolso da calça, e eu ainda não havia tomado coragem para fazer nada. O isqueiro estava […]
Por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte…
Manhã ensolarada. Domingo. Céu de Deus, dizia baixinho. Olhar lânguido. Boca seca. Um doce – Ah, que delícia! – gritou pra dentro e olhou pros lado com vergonha. Baixou-se e pediu desculpa. Apanhou um pedaço. Limpou-o nas calças, seguras por suspensórios surrados, ganho da madrinha. Meu deus, como esse menino engordou! Dizia a mãe como […]
O Gato de Alice.
O riso nervoso, histérico, doente, ecoava no ar do lugar. Por mais que eu olhasse em volta, por mais que procurasse, não saberia dizer de onde vinha aquele som, onde estava oculta a fonte daquela sinfonia insana. Procurava ignorar aquilo. Tinha muito trabalho a fazer e não havia mesmo para onde ir enquanto não acabasse […]
Flagrante.
Foi preso em flagrante. Roubando pão. Na delegacia, tentava se defender. O delegado, pela quarta vez:
– Seu nome?
Ele ainda resistia.
– Mas delegado… Foram apenas uns pãezinhos…
– Roubo é roubo. Última chance.
Ele se rendeu. Tinha medo.
Conversão.
Equilibrava, cegamente, uma insensata razão e uma beata loucura numa infame balança quebrada. Trabalho difícil para uma Têmis desequilibrada, falida e sem espada, suando ensangüentada com uma navalha na mão. Copo d’água meio vazio sobre a mesa. Prozac as dezenas na cabeça cheia. Voluntariamente vendada, desesperava-se com as brincadeiras sem graça de seus malditos análogos: […]
Velhos Amigos.
Sempre sonhei com alguém me dizendo que eu era a única pessoa que realmente importava, que eu era especial para ela. Acho que isso é o sonho de todos, na verdade. E comigo não foi diferente.
Fabrício e eu sempre fomos grandes amigos. Uma amizade totalmente sincera, onde sempre desejávamos o melhor possível um para o outro. Mas quando […]
O Último Corpo.
“Meu amor de sombra é o maior que existe. Uma delícia. Uma penúria. Igual uma imensidão feita de luz em forma de uma cortina negra. Não tive escolha. Foi a maneira que encontrei de libertá-la dos malvados. Espero que me perdoe. Amo você.”
Foi essa a mensagem encontrada sobre o colchão, ao lado desse último corpo. […]
Os Legistas.
Na sala do IML. Gavetas metálicas nas paredes. Câmara mortuária. Duas pessoas vestidas. Uma nua, seu atual nome é 2. 498-4. Sobre a mesa de necropsia macroscópica no centro da sala, sob uma lâmpada amarela spot, há uma garota loira. 22 anos. Altura 1,75 m. Busto 91 cm. 60 quilos. Quadril 67. Lábios carnudos. Pêlos […]
Um Neto para Alcântara Machado.
Queria netos.
Precisava de netos.
Dos três filhos, sabia bem: nenhum tinha condições de levar adiante suas terras, seus negócios, seus patrimônios. Muito menos seu sobrenome, tão respeitoso.
Eram uns miseráveis, seus rebentos. Uma vergonha. Tomavam café com açúcar, e o velho Alcântara Machado pensava que um homem de verdade toma café sem adocicá-lo.
Se não agüenta um bom […]