O dia em que Raul Seixas parou.

Dentre as manias que eu tenho, essa é do início da infância, dos tempos do rádio de cabeceira (ainda de válvula!): primeiro abrir os olhos do sono, depois a primeira coçada de saco do dia e imediatamente ligar o rádio num dos tantos “jornais da manhã”.
Rock’n’roll de fundo musical para as notícias faladas? Teixeirinha alertou, a notícia era de morte de alguém que eu amei: a empregada havia encontrado Raul Seixas morto no apartamento em que morava na rua Frei Caneca, aqui em São Paulo.
A janela aberta anunciava dia feio, bem padrão paulistano, quando o telefone tocou. A namorada da época perguntando se eu já sabia e como estava me sentindo. O palavrão de porta de banheiro de puteiro que ouviu de retorno não precisou ser nada além do que único. Educação refinada logo no início do dia.
Arrumando o nó da gravata do uniforme de otário, o ouvido pescando detalhes mórbidos na voz do locutor: pancreatite, álcool em doses cavalares, vida desregrada, o cacete a quatro. Porra, não é possível, ainda outro dia apareceu em entrevista na televisão, falando de disco novo; tava baleado, é verdade, mas cantou acompanhado pelo Marcelo Nova emocionado e emocionando como sempre. Aí lembrei: rocker não tem vida, simplesmente existe para fazer rock até que um acorde acaba sendo o último, assim sem mais. Blueseiro fazia acordo com o diabo em encruzilhada; rockers - Brian Jones, Jim Morrison, Janis Joplin, Jimmy Hendrix, John Lennon, quanto “jota”, meu Deus, um dia ainda escrevo sobre isso! – pareciam selar pactos diretos com a morte, sem intermediários.
A Consolação era o caminho que se impunha, trânsito enrolado que só a pega da porra como se diz no nordeste, no toca-fitas do meu carro (grande Bartô Galeno!) Raul cantando bonito de vivo como sempre, desde aquela noite, em 1972, quando desbundou a babaquice bomgostista do Festival Internacional da Canção da Globo, com um inacreditável roquezinho antigo que assustou a todo mundo. “Let Me Sing, Let Me Sing” tinha um básico DNA triplo, apolo-dionisíaco Frankenstein montado a partir de amputações inconfundíveis de Chuck Berry, Jerry Lee Lewis e Little Richard, porém com um acento de estranheza quase marciana, que deixou intelectuais e intelectualerdas desnorteados. Quem curtia rock de verdade, de cara viu o norte na ponta da agulha do pick up.
Além do emprego burguês, eu trabalhava com jornalismo musical à época. Espantosamente, foi apenas Jerry Adriani quem pôde me dizer coisas sobre aquele baiano maluco, que teve a adolescente desfaçatez suicida de insolentemente tomar de assalto aquele palco, templo do establishment fonográfico multinacional, de jaqueta, calças jeans com barras viradas para fora e topete, como um absolutamente anacrônico teddy boy ressuscitado da tumba de celulóide de um documentário da década de 50.
Pouco tempo depois, todo mundo já sabia. Um compacto com uma estranhíssima canção-discurso, mas que ao mesmo tempo, soava com a familiaridade de música velha conhecida de assobio, “Ouro de Tolo” estuprou ouvidos e mentes do Oiapoque ao Chuí, como se dizia em clichê de chiclé. Feito Tarzan dos Macacos com pinta de faquir subdesenvolvido, Raul gritou “Cuidado, Aí Vem o Inimigo!”. As dez músicas de “Krig-Há, Bandolo!” (“Mosca Na Sopa”, “Metamorfose Ambulante”, “Dentadura Postiça”, “As Minas do Rei Salomão”, “A Hora do Trem Passar”, “Al Capone”, “How Coul I Know”, “Rockixe”, Cachorro Urubu” e a própria “Ouro de Tolo”) tornaram-se clássicos absolutos, a ponto de a garotada de hoje chegar a pensar que o LP é uma coletânea de sucessos de Raul Seixas, espécie de “Greatest Hits” ou “Best Of…”. A gente explica e eles se espantam, tanto quanto nos assombramos à época, com tanta criatividade & incrível qualidade.
O velório foi montado no Anhembi. A namorada da época arriscou perguntar se eu iria e com o “Nem fodendo, não quero ver ele morto, e quero que esse bando de papa-defuntos de ocasião vá à merda!”, achou melhor não fazer mais perguntas naquele dia e me deixar sozinho com minha esmerada educação.
Pela televisão dava para se emocionar com a magnífica zona. Nenhum dos “grandes nomes” da “mepebê” ou do chamado rock-tupiniquim deu as caras. Porém, o povão, jovens em sua maioria com pinta de office-boys, o verdadeiro público de Raul fez fila para passar no caixão, lotou o lugar e cantou e cantou e cantou. Um deles berrou no microfone do manequim-jornalista: “Porra, se teve carro de bombeiro para levar o Tancredo, como que não tem para levar o Raul?”. Eu queria chorar e rir ao mesmo tempo, mas o Raul, tenho certeza, queria gargalhar no caixão, porém deve ter achado melhor não. Pela manhã, voltei a ligar a TV e aquele moleque desaforado, debaixo de uma chuva do cacete, cantava “Maluco Beleza” aos berros em frente ao carro de bombeiros. Raul foi levado para ser enterrado na Bahia, com direito a um ótimo quebra-quebra em Congonhas: “I know is rock `n` roll and I like it”.
Daqui para a frente, seria dizer que tudo e todo o resto é história, porém estou atrás dessas letras é com a pretensão mesmo de contar minha historinha nessa história toda. Tive pouca proximidade com Raul, mas estive presente num dos, estou convencido, maiores momentos de palco de sua vida de artista.
Em 1982 eu trabalhava na assessoria de imprensa da Secretaria da Cultura de São Paulo, que realizava em Santos um tal de Festival de Verão. O Brasil estava pasmo: Elis Regina tinha morrido no dia 19 de janeiro e se apresentaria naquele evento no mesmo dia em que Raul faria seu show (não recordo quem seria o terceiro artista da noite).
Pedi a meu chefe que me dispensasse de trabalhar naquela noite; queria curtir o show como platéia e comecei a encher a cara no meio da tarde. Uma multidão tomou conta da praia do Gonzaga (ninguém até hoje sabe quanto, falam em mais de 200 mil pessoas). Eram, em maioria esmagadora, os facilmente identificáveis fãs de Raul Seixas, genericamente chamados de bichos-grilo, mochileiros ou simplesmente cabeludos sujos: alegres, “fumantes”, ruidosos.
Para homenagear, alguém da organização bolou colocar um solitário microfone no palco vazio, iluminado por um spot, enquanto era tocada “Fascinação” interpretada por Elis. Lindo, emocionante, todos respeitaram, mas, acabada a música, em segundos o clima tornou a virar e a galera impaciente urrava pedindo aos berros: “Raul!, Raul!”. A banda (era ótima, só feras) entrou e foi fazendo aquele som de aquecimento, mas até os tiras da PM estavam assustados, temendo algum descontrole daquele povo todo. Fui para os bastidores e o mais calmo gritava palavrões em série invocando a intervenção de Deus: Raul, sentado no chão, chapadíssimo de sei lá o que, quase dormindo, dizendo que não entrava. Chacoalhei o baiano e gritei que ele tinha de ir, senão ia ser a maior merda, e ele: “Não enche o saco, que show que porra nenhuma”.
Aí aconteceu.
Sei lá quem mandou, a banda deu a música de introdução, o povão foi à loucura e eu vi, juro que vi: Raul arrancou minhas mãos de seus ombros, o caboclo Elvis Presley desceu e entrou no corpo dele, pendurou a lindíssima guitarra no pescoço e foi para as luzes do palco levitando em segurança e auto-controle, em meio a uma ovação indescritível. Cantou como nunca (menos o “Rock das Aranha”; apesar dos pedidos, estava proibida pela censura e os “hóme” viviam de olho nele), com uma performance, no mínimo, sobrenatural. Ao final, quase uma garrafa de conhaque na cabeça, suado que só um porco, totalmente rouco, voltei aos bastidores, abracei-o e ele me disse: “É Wal, você falou que eu podia”. Foi a única vez na vida que beijei um homem afora meu pai.
Na saída, meu chefe me esperando, ordenou que eu escrevesse, e rápido, a matéria da noite. Lembrei nossa combinação, ele disse que não queria saber, estava mandando e pronto, que jornalista não escolhe matéria e o diabo. Foi xingação pra todo lado, remember minha educação refinada, mas, digamos, razoavelmente bêbado, sentei à máquina de escrever (um dia explico aos mais jovens o que era esse insólito equipamento de escrita), a namorada da época (era outra) fazendo copos de uísque aparecerem não sei de onde e coloquei raiva e sangue em cada letra de cada palavra de cada frase. Foi de prima. Joguei as laudas (um dia também explico o que era isso) na mesa do chefe, que aprovou sem qualquer correção e me parabenizou. Falei que ele era um grande filho de uma puta sem palavra. Ele respondeu: “E você acha que eu ia deixar que alguém aqui, além de você, escrevesse essa matéria hoje?”. A gargalhada foi geral e a gente se abraçou rindo. Às vezes, lamento não ter guardado aquele texto, mas no fim lembro daquele inquebrantável aforismo jornalístico: “Jornal velho só serve pra embrulhar peixe” (ou “pra limpar a bunda”, como teria dito Lampião).
Sem querer cair em sociologismos de botequim, conheço poucos exemplos de um artista com tanta qualidade transgressiva que tenha conseguido identificação junto ao público, desde a empregaducha doméstica à madame-perua; do milionário ao zé mané, passando pelas classes alta, baixa, média, mérdia e pelos sem classe, como eu.
Enfim, no dia em que Raul Seixas parou, não fui ao velório dele (detesto ver gente morta); inclusive, pretendo também não ir ao meu. Porém, sempre que vou a Salvador dou uma chegada no Jardim da Saudade, com meu hip flask cheio de Cutty Sark até a boca, e derramo o mágico destilado escocês na terra do túmulo, enquanto com minha voz desafinada canto baixinho com ele “Cachorro Urubu”, minha predileta entre tantas.
Esse ano, sem grana, não vai dar para ir. Porém, em algum momento, no próximo 21 de agosto, vou botar três pedras no scotch, acender um cigarro, por pra tocar o LP (sim, eu disse LP!) e mais uma vez cantar com ele “Cachorro Urubu”.
Se alguém tiver curiosidade de entrar na tolice desse ouro, fica a letra aí embaixo.
E Long Live Rock’n’Roll, como Raul Seixas gostava de conclamar nos shows.

Baby, essa estrada é comprida
Ela não tem saída
É hora de acordar
Pra ver o galo cantar
Pro mundo inteiro escutar
Baby a história é a mesma
Aprendi na quaresma
Depois do carnaval
A carne é algo mortal
Com multa de avançar sinal
Todo jornal que eu leio
Me diz que a gente já era
Que já não é mais primavera
Oh baby, oh baby
A gente ainda nem começou
Baby o que houve na França
Vai mudar nossa dança
Sempre a mesma batalha
Por um cigarro de palha
Navio de cruzar deserto
Todo jornal que eu leio
Me diz que a gente já era
Que já não é mais primavera
Oh baby, oh baby
A gente ainda nem começou
Baby isso só vai dar certo
Se você ficar perto
Eu sou um índio sioux
Eu sou cachorro urubu
Em guerra com zeú!

Por Waldemir Marques.
Publicado primeiramente no site Cronópios.

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Este artigo foi postado Quinta-feira, 27 Agosto, 2009 ás 01:00 na edição Edição 31. Você pode acompanhar os comentários assinando nosso RSS 2.0 feed. Você pode deixar um comentário, ou trackback de seu site.

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