Lua de Sangue.

Não sabia explicar o que acontecia. Não lembrava quando e onde isso tudo havia começado. Tinha apenas algumas lembranças, como flashes, como fotografias instantâneas na sua mente. Por sua cabeça vagavam algumas lembranças daquele passeio na mata, do acidente, da mordida. Mas não sabia que isso tinha alguma relação, nem se havia sido verdade ou tudo não fora um sonho de criança.
Sabia apenas que era bom. Que era uma sensação gostosa o que sentia. Sentia-se forte. Sentia-se dono de tudo. Seguro. Sentia que tinha poder. Ouvia melhor, enxergava mais longe, corria mais, pulava mais alto. Era uma sensação de prazer acima de tudo que já havia conhecido. Fantástico. Maravilhoso. Já havia experimentado algumas drogas que o deixava forte e com coragem, mas aquilo era diferente. Aquilo era perfeito. Era inimaginável. Era o êxtase.
Nunca havia conversado sobre isso com alguém. Também, diria o quê? Como explicar o inexplicável? Como exemplificar algo que não tem comparação? Além do que, era melhor que ninguém soubesse. Aquilo que lhe tornava melhor do que todos, também lhe era um karma, um caminho sem volta. Algo que nem ele mesmo entendia. Algo que ainda não sabia se era bom ou ruim. Além do mais não tinha amigos. Para quem então contaria? Namorada? Podia contar em 2 dedos as que havia tido. Era visto por todos como alguém “esquisito”. Assim ouvira de algumas garotas na rua uma vez. Esquisito. Sim, ele era esquisito. Era diferente.
A primeira vez que aconteceu foi à cerca de dois anos atrás. Estava deitado em seu quarto, lendo, quando começou a sentir as contrações. Lembra bem disso. Nunca poderia esquecer. As contrações lhe causavam dores por todo o seu corpo. Pensou que ia morrer aquele dia. Mas ao mesmo tempo em que sentia dores, aquilo lhe dava uma sensação de prazer. Dor e prazer. Algo estranho para ele até aquele momento. Mas que nunca mais conseguiria esquecer.
A lua era linda. Sentia vontade de ficar olhando-a a noite toda. Grande. Cheia. E como brilhava. Seu corpo estava mais forte, como nunca antes estivera. E cada vez que isso acontecia, sua força parecia aumentar. Seus olhos podiam enxergar tão longe quanto fosse preciso. A escuridão não era um problema. Na verdade a escuridão era sua amiga. Sua cúmplice. Os odores que sentia se misturavam em suas narinas. Podia senti-los a centenas de metros de distância. Cheiro de flores, perfumes, cheiro de lixo, cheiro de suor, de medo e de sangue. Mas o cheiro do medo e do sangue era o que mais lhe atraia. O cheiro do medo o instigava. Dava-lhe fome.
Num canto da rua, escondido dentro da escuridão das vielas e becos, podia ouvir todos os sons da madrugada. Risadas, choros, sirenes de polícia, conversas, os gritos, as tristezas. Ele era um ser perfeito. Ele era completo. Era a perfeição genética. Era o futuro da humanidade.
Tinha fome. Muita fome. Precisava comer alguma coisa. Agachado no canto escuro da pequena rua, ele podia sentir o cheiro da mulher que se aproximava. Um cheiro doce, floral. Podia sentir seus passos ressoando por todos os ossos do seu corpo. Cada passo que ela dava era como um disparo de marcapasso dentro do seu corpo. Sentia o medo naquela criatura, naquela presa. E era o cheiro do medo que lhe atraía. O cheiro de flores daquela mulher agora se misturava ao cheiro forte do medo que exalava por seus poros, enquanto caminhava pela noite escura e fria. Era como se a sua presa pressentisse que seu fim estava próximo. Sentia o sangue correr acelerado por dentro do corpo dela. Podia escutar o coração da sua vítima.
Ele foi rápido. Enquanto suas garras prendiam sua presa, seus dentes arrancavam pedaços enormes de carne a cada mordida. Com apenas algumas mordidas na altura do pescoço, ela já estava imobilizada e morta. Não houve tempo nem de gritar. Seus dentes eram navalhas que cortavam a carne como papel. A carne. O sangue. A fome. A sede. Como era delicioso comer carne humana. Como era gostoso sentir o sangue escorrendo por sua garganta. Aquilo parecia lhe deixar ainda mais forte. O cheiro de flores daquela mulher agora se misturava ao cheiro do sangue. As entranhas eram quentes, o coração lhe dava força, lhe saciava a fome e a sede.
Sentia-se um animal. Sentia-se forte. O gosto da carne e do sangue lhe dava prazer e satisfação. Sentia sua fome ser saciada. Sentia seu corpo se encher de força e poder.
Aquela altura já não era mais possível reconhecer a vítima. Seu corpo dilacerado e estraçalhado a cada mordida, não passava de um amontoado de restos de ossos e carne espalhada pelo chão. Ao redor, uma enorme poça de sangue procurava o melhor caminho para fluir. O sangue saciava sua sede. A carne sua fome.
E de repente veio a vontade de uivar. A lua estava linda aquela noite. Parecia atraí-lo. Se pudesse ele iria até lá, abraçá-la. Devorá-la.
E como brilhava. Era fascinante. Merecia ser idolatrada. Nesses momentos, ele ficava imaginando se havia outros como ele. Porque se houvesse, ele precisava achá-los. Porque se houvessem outros como ele, o mundo seria perfeito.
E uivou. Por minutos uivou para a Lua, como se lhe agradecesse por ser tão bela, por existir e iluminar a sua vida. E ao longe se podia escutar outros uivando. Como uma grande e perfeita sinfonia. Como uma grande família.

Por Fabiano Cisticerco.

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Este artigo foi postado Quinta-feira, 27 Agosto, 2009 ás 00:59 na edição Edição 31. Você pode acompanhar os comentários assinando nosso RSS 2.0 feed. Você pode deixar um comentário, ou trackback de seu site.

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