A Crise no Senado: Dor e Ranger de Dentes.

A crise no senado brasileiro revela a quantas anda o estado da nação. Tenho lido e acompanhado o que vem se desenrolando pelos porões desta nobre, ou pelo menos deveria assim ser, instituição governamental. Havia prometido cá com meus pensamentos tortuosos, que não iria gastar massa cinzenta em mais um episódio lamentável de nossa realidade política. Já há lamaçal em demasia a escorrer por minhas já fustigadas retinas.

No entanto, não obtive êxito nesta minha empreitada e, depois de assistir a TV Senado no dia de ontem, tenho que por cá exorcizar um pouquinho que seja da minha indignação e asco.

Talvez eu seja um dos poucos brasileiros que assistam a TV do Senado, da Câmara dos Deputados e da Justiça. Há louco para tudo e com certeza sou um dos que jogam neste time. Algum psicanalista de plantão talvez possa correr e já lançar seu diagnóstico preciso. Masoquismo com toda certeza. Para ver nossos nobres representantes dos três poderes atuando, certamente devo muito gostar de sofrer…

Adianto para os que não me conhecem, que não sou daqueles que lançam críticas fáceis e irascíveis. Não transformo minha liberdade de opinar em instrumento de interesses menores, vaidades ou qualquer outra frustração de comportamento ou caráter.

É bem verdade também que não podemos nos afastar do que somos ou acreditamos, sob pena de nada sermos. Mas sempre dando o melhor no caminho da ponderação mais justa possível, para não sermos cópia fiel daqueles que criticamos. Vivemos em uma estrutura política bicameral ou seja, Câmara dos Deputados e Senado Federal, formando aquilo que denominados de Congresso Nacional. Tudo isto bem delimitado em um sistema de repartição de competências estabelecido em nossa carta magna de 1988.

Nosso Senado deveria ser além de câmara revisora em muitos casos, orgão onde habitasse uma classe de políticos de primeira linha. Nossos nobres senadores representam os Estados da Nação Brasileira, mas tem ou deveriam ter, papel muito superior a isto. Algo que lembrasse o velho senado romano em seus tempos de glória. Certamente uma utopia, diriam alguns, pois até mesmo esse não estava livre de máculas. Ocorre que este ideal deve ser perseguido sempre, como outrora o foi, fato que, por curioso, anda as avessas nos dias atuais.

A qualidade moral de nossos senadores é a pior possível, com raras exceções. A vergonha e o pudor não mais existe em nossos homens públicos. O que vale é a manutenção e exercício de seus podres egos. A nação que fique por último.

Se estas figuras foram eleitas pelo povo, deveriam guardar algum tipo de ligação com seus representados. Mas é fato que o homem de bem não sente qualquer tipo de identificação com estes personagens dantescos. Por que será ? Certamente há algo de muito podre do reino da Dinamarca, parodiando nosso Shakespeare. Muito há que considerar em tudo isto, mas vou tangenciar para não estender em demasia, somente lembrando que nosso sistema eleitoral privilegia este tipo de coisas. Uma casta de interesseiros da pior espécie, misturada com outra casta de omissos e, no meio de tudo, um punhado de idealistas, que logo são expurgados do meio para não atrapalhar o andamento da máquina política.

O Senado entrou em recesso, esperando que a crise que o atingiu arrefecesse. Voltou do interregno e tudo anda pior. O presidente da casa e ex-presidente do Brasil, nosso nobre imortal Jose Sarney, também não renuncia ao cargo e provoca mais alvoroço. Parece que seus “Marimbondos de Fogo” andam a picar todos os senadores da república.

Desta feita, enquanto assistimos a cenas do mais baixo nível, com insultos e ameaças de uns contra os outros, disputas de poder e ego, o Brasil anda, ou melhor, não anda! A casa legislativa está praticamente parada. É fato que desde há muito o nosso legislativo se avilta perante o executivo. Entretanto, na atual conjuntura, nos apercebemos desta triste realidade com mais força. Será seu trabalho dispensável?

Eu tenho certeza que a resposta para a pergunta é: não. Mas é por estas e outras que já surgem nas ruas propostas de se abolir o bicameralismo e adotarmos o sistema único de representação. Os mais exagerados falam até em extinção pura e simples.

Não possuo mais ilusões de que pelo caminho do bem estes senhores vão fazer algo de produtivo. Apelar para a consciência de quem não a tem é “chover no molhado”. Não podemos ensinar física quântica à um primitivo. Também não podemos apelar para ética, respeito, moralidade e urbanidade no trato interpessoal e da nação à defeituosos de caráter. É tarefa que se mostrou impossível, infelizmente. Estes não aprendem pela inteligência. Terão que sentir o caminho da dor.

Que este podres homens se degladiem, sob a luneta aguçada da imprensa, e mostrem suas verdadeiras facetas ao público. Muitos se machucarão e outros tantos levarão bordoadas ao vento, mas somente assim teremos esperança de um futuro melhor.

Não sou daqueles que propalam que a imprensa é a causadora da crise. Certamente ela a alimenta, com interesses também, muitas das vezes, inconfessáveis. Mas dos males o menor.

Por derradeiro, é importante considerar, como bem frisou o Senador Cristovão Buarque, que o presidente José Sarney deve ser tratado nesta crise como político, e não como ex-presidente da República Federativa do Brasil. Vou mais além. Não adianta, portanto, ficar a relembrar fatos históricos passados, a tentar corroborar sua faceta de grande estadista. Poderia assim ser, se o referido político permanecesse nesse status e não viesse pleitear uma vaga no Senado. Mas já que aceitou as regras do jogo e despiu-se deste patamar, deve satisfações ao país, na condição atual de senador que é. Não mais de um vulto histórico que quer ser. Deveria ter se despido das práticas coronelistas já tão entranhadas em sua carne, e se portado como figura irretocável. Algo como conselheiro da nação, como todo ex-presidente deveria ser, embora eu moderasse nas temperas da modernidade seus lembretes, se político fosse. Mas o atavismo falou mais forte e lá está nosso Sarney nas barbas do poder novamente. Sendo assim, deve prestar contas ao Senado e a Nação, afastando-se para que as denúncias contra si sejam devidamente apuradas, sem esfera de influência nenhuma emanada de si.

Seu afastamento não é a solução do problema. É gesto somente simbólico e apaziguador. O Senado brasileiro necessita de profundas correições administrativas bem como estruturais. E o mais importante de tudo: as práticas consideradas “normais” devem ser abolidas. O regimento interno deve ser cumprido a risca, sem privilégio algum, dando espaço para senadores do denominado baixo clero serem mais ativos. Se juntarmos a isto uma reforma eleitoral profunda, a dar espaço verdadeiro a renovações, talvez tenhamos esperança para o país. Caso contrário, somente a dor e o ranger de dentes…

E que Deus nos ajude!

Por Hilton Meirelles Bernardes.

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Este artigo foi postado Quinta-feira, 27 Agosto, 2009 ás 00:57 na edição Edição 31. Você pode acompanhar os comentários assinando nosso RSS 2.0 feed. Você pode deixar um comentário, ou trackback de seu site.

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