Conjecturas Desimportantes.

Passos levam sempre a um lugar. Quem a guiava era o léu. Às vezes deixava-se ir, pois o que realmente queria era estar indo, e não chegar. A moça chamava-se Sara. Ela tinha um sobrenome belo, contudo, não gostava de dizê-lo, tão pouco que o dissessem — achava-o feio. Por isso Sara apenas. Somos um todo, mostramos a parte. Vêem de nós apenas uma fração, o que achamos feio e sujo em nós, jogamos embaixo do tapete para que ninguém mais veja. Os olhos dela viam mas não enxergavam. Caminhava ensimesmada.

Num instante preciso Sara tropeçou num tronco jogado no chão.

Não era um tronco grande, nem por isso achar-se-ia pequeno; era uma coisa diminuta para a função de tronco, grande para função de galho, parecia maior ainda para pés que caminham sem o cuidado de um olho. Sara não machucou-se — sequer chegou a cair. Apesar disso, o susto deu-lhe um daqueles enfurecimentos relâmpago. Amaldiçoou o pedaço de madeira como se ele fosse o culpado de estar ali. Respirou fundo e veio-lhe de sobressalto uma lucidez mais clara que a luz de sua fúria repentina. Para um fragmento de tronco estar ali, era necessário antes alguém tê-lo jogado. Dizer-se-ia que o réu é a mão descuidada. Há nisso um equívoco no pensar: para que a mão pudesse jogar aquele pedaço ao chão, era necessário antes que ele se tornasse um pedaço — o tronco foi, antes de ser um pedaço, parte que completava um salgueiro; era o corpo do salgueiro que é o salgueiro, assim como um braço é a parte do nosso corpo e nosso corpo é nós mesmos. Deveria-se, ao invés de dizer “meu corpo”, dizer “eu-corpo”–. Quais mãos teriam, então, cometido o delito de cortar aquela madeira, tornando-a pedaço inexpressivo e sem vida? Numa conjectura mais profunda, Sara percebeu que, para a mão criminosa cometer seu ato pérfido, haveria antes de tudo que crescer uma árvore. Mãos caridosas de um corpo sorridente, seja ele da natureza ou de uma alma pura e anônima, acrescentaram à terra uma semente. A terra agradeceu a bondade e, como que por sinal da gratidão, gerou vida. Sara encontrou nesse pensamento o limiar do tropeço. Se mergulhasse um pouco mais fundo, enxergaria mais coisas nesse oceano.

Nadou até a superfície do pensar e tomou fôlego. Um vento leve lhe esfriou a cabeça e a fez pensar em outra coisa — continuou caminhando, de olhos vendados para o mundo e abertos para dentro de si.

Por Ebbios.

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Este artigo foi postado Sábado, 25 Julho, 2009 ás 20:20 na edição Edição 27. Você pode acompanhar os comentários assinando nosso RSS 2.0 feed. Você pode deixar um comentário, ou trackback de seu site.

Um Palpite para o artigo “Conjecturas Desimportantes.”

  1. Jana Lauxen escreveu:

    Acho que todos nós já fomos Sara.
    Pelo menos uma vez.
    Fantástico Ebbios, parabéns!

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