Bêbados, prostitutas, o gordo e eu.

Segurei o copo de cerveja alguns instantes no ar e olhei para os outros, que estavam na mesa comigo, antes de derramar um pouco na boca. A cerveja desceu amarga e gelada. Despreocupado, lancei meu olhar em volta.
Na minha frente uma mulher falava alto, quase aos gritos em alguns momentos. Junto com ela, mais duas garotas e três homens com cara de bêbedos seculares. As mulheres eram prostitutas, sem dúvida. Uma delas olhou pra mim com cara de sexo.
A mesa do lado tinha um casal de meia-idade, distinto. Falavam baixo e riam. A mulher rodava sua aliança de um dedo para o outro. Provavelmente discutiam coisas inteligentes. Sem graça, convenhamos. Mas convidativo.
Olhei para a mesa atrás de mim, um cara gordo engolia uma comida mais gorda que ele. A bebida? Um refrigerante diet.
O gordo misturava aquela lavagem com farinha, molho e refrigerante, nessa exata ordem repugnante. Por alguns instantes, me ocupei em imaginar como aquela comida descia pelo seu esôfago que, entre um espasmo e outro, chegaria até ao estômago e ali permaneceria por algumas horas, dias até, sendo dissolvida pelas enzimas, indo pelo piloro, intestino delgado, intestino grosso e, numa tarde qualquer, renasceria em forma de MERDA. P-o-é-t-i-c-o.
O garçom suava entre os atendimentos. Carregando as bandejas com eficiência e rapidez, parecia um malabarista, que sem as luzes do palco, era triste e irritado. Desisti do garçom.
Voltei para minha mesa. Com certeza a pior de todas. Preferi, naquele instante, a companhia do gordo e sua lavagem, que agora, olhando melhor, era até apetitosa.
Foi aí que percebi que os que me rodeavam falavam numa língua que não compreendia, apesar do meu esforço. Uma língua selvagem e feliz.    
Bebi da minha cerveja de novo e resmunguei atrocidades pela incompreensão das falas. Mentalmente, lógico. Nada de mal me fizeram essas figuras pálidas, o problema era meu. Na verdade, no final de todas as contas humanas, devo ser pior que todos eles.
Se os considero inertes na evolução humana, narcisistas de suas inteligências e atitudes medianas, fracos de espírito, mal educados, analfabetos funcionais, refugo de suas próprias comidas… bem, isso é um problema meu. Do meu caráter peculiar e mal. De minha vida cheia de redundâncias inertes.
Provavelmente, do meu fígado doente.
O álcool. - resmungou alguém dentro da minha cabeça.
É o álcool. - respondi de volta. 
Assim, recolocando o copo na mesa, preferi o silêncio.

Por Danielle de Medeiros.

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Este artigo foi postado Sábado, 25 Julho, 2009 ás 20:18 na edição Edição 27. Você pode acompanhar os comentários assinando nosso RSS 2.0 feed. Você pode deixar um comentário, ou trackback de seu site.

Um Palpite para o artigo “Bêbados, prostitutas, o gordo e eu.”

  1. Jana Lauxen escreveu:

    Nesta história eu seria o cara gordo ingerindo uma comida mais gorda que ele.
    Rarara.
    Adorei o texto.

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