Velhos Amigos.
Sempre sonhei com alguém me dizendo que eu era a única pessoa que realmente importava, que eu era especial para ela. Acho que isso é o sonho de todos, na verdade. E comigo não foi diferente.
FabrÃcio e eu sempre fomos grandes amigos. Uma amizade totalmente sincera, onde sempre desejávamos o melhor possÃvel um para o outro. Mas quando FabrÃcio me falou que tinha se separado da namorada dele, a Marcela, juro que quase gargalhei de tanta alegria. Não que antes eu tivesse tanto ciúmes deles assim – e nem teria porquê, já que ela nunca demonstrou ciúmes de nenhum amigo do FabrÃcio, inclusive eu.
Nossa amizade era tamanha que chegava a me incomodar quando ele tinha seus “casinhos”, já que nos encontrávamos com menos freqüência – e o namoro com Marcela foi o fim, pois ou ele estava no trabalho ou estava com ela.
Nossa amizade surgiu na infância, quando éramos pequenos, inocentes. Crescemos vizinhos sempre. Éramos unha e carne. Sempre que eu tinha alguma novidade, ele era o primeiro a saber. E vice-versa.
Todos na vizinhança falavam de nós. Alguns até ousavam dizer que nossa amizade era além de “simples amigos” – o que deixou meu pai furioso certa vez. Talvez por isso, quando nos tornamos independentes, tivemos que alugar apartamentos separados, pra evitar que a vizinhança falasse pelos cotovelos.
Isso, de me afastar do FabrÃcio, me incomodava um pouco, apesar de eu nunca ter assumido pra ninguém. Mas ainda assim fomos morar próximos um do outro. Na faculdade, a mesma coisa, sempre mantÃnhamos contato freqüente.
Antes da Marcela, ele teve duas namoradas, mas nenhuma ia com a minha cara. Sempre fui daquelas pessoas que se preocupam muito com os amigos, em qualquer ocasião. Talvez fosse esse o problema que as deixavam sempre enciumadas.
Recebi um telefonema de FabrÃcio no final da tarde, no dia em que soube que ele e Marcela haviam se separado. “Posso passar mais tarde aÃ? Daà a gente toma umas brejas, topa?”, disse-me pelo telefone. Assim ficou combinado. Jantamos assistindo a um jogo de futebol europeu, que estava reprisando os melhores momentos na televisão – tÃpico programa que nunca prestamos atenção, só pra deixar a tv ligada mesmo.
Olhando para ele, nem parecia ter saÃdo de um relacionamento de quase dois anos, pois estava muito bem. Quando abri a quarta garrafa de cerveja, ele sugeriu que eu abrisse o vinho que ele trouxera. O jogo acabou e trocamos de canal aleatoriamente, até encontrar um filme já pela metade. Deitamos em frente à tv, acabando vagarosamente com o vinho.
O frio foi uma desculpa para nos deitarmos perto um do outro, e no momento em que o vinho acabou, já estávamos próximos o suficientes pra não conseguir evitar um beijo; cordial, amigável e sincero – como nunca havia imaginado que pudesse ser entre nós. No inÃcio me senti totalmente desconfortável, por ter permitido, desejado tanto e me sentido tão bem com aquilo tudo.
O beijo durou alguns segundos, mas pareceu eterno. Logo após não consegui abrir os olhos, talvez por vergonha, ou por receio daquele momento chegar ao fim repentino. Mas senti suas mãos sobre as minhas, me reconfortando tanto, que o segundo beijo foi fatal, e percebi que era isso que ele queria também.
A culpa sumiu, dando lugar a um velho amor, de anos de amizade, esquentando aquela nossa noite fria.
Por um momento de lucidez, me perguntei porque nunca assumi esse amor, mas achei melhor deixar a razão para o amanhecer. Fizemos amor, mesmo que do nosso jeito, acanhados não só por ser a primeira vez, mas principalmente por ser com quem já vivenciamos tantas situações, com alguém que conhecemos tão bem quanto nós mesmos. Antes de pegarmos no sono ali, no meio da sala mesmo, o ouvi sussurrar algo que nunca me esqueci: “você é única para mim, Aline”.
Por Sergio Chaves.
Publicado originalmente na revista Café Espacial nº01.
Tags: Conto
Amigo é um voto secreto que nunca devemos revelar pois o segredo esta no sincero convivio de que nunca as cobranças pesarem em nossa carteira de crédito sentimental.
01 Outubro 2009 as 15:09Paulo Kwamme.