Por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte…
Manhã ensolarada. Domingo. Céu de Deus, dizia baixinho. Olhar lânguido. Boca seca. Um doce – Ah, que delÃcia! – gritou pra dentro e olhou pros lado com vergonha. Baixou-se e pediu desculpa. Apanhou um pedaço. Limpou-o nas calças, seguras por suspensórios surrados, ganho da madrinha. Meu deus, como esse menino engordou! Dizia a mãe como que praguejando por não conseguir ver crescidos seus próprios peitos. Ninguém os apalpava. Roupas simples, mesmo assim, ele foi pra missa. Rezou. A mãe não quis ir buscá-lo. Sempre que podia fazia isso e ele voltava depois, sozinho e meio triste. Terminado o sermão, batidas de pé no piso de madeira. Bundas a remexer inquietas. Falatório inconfundÃvel. Que bosta! Disse um imbecil a outro na saÃda. Ele foi mais uma vez para a sacristia, como quem segue ao, digamos assim, matadouro. A porta fechou-se. Não mais se ouviu a balbúrdia de minutos atrás. Ajoelhou-se, fechou os olhinhos castanhos claros. Xodós da madrinha, mas da mãe nem pensar; ela achava-os como os de ratos. A braguilha abriu-se e um enorme e cavernoso pau entrou raspando os lados da boca pequena que só conhecia pouca comida, bolinhos de araruta e, agora, o grande pau sacro. Chorou baixinho enquanto entoava como podia e de boca cheia, uma ladainha muito conhecida pela comunidade religiosa do lugar. Levantou-se, ajeitou os suspensórios. As calças eram apertadas e entrou cuzinho adentro, deixando as mostras suas rechonchudas nádegas. Uma mão enrugada alcançou as pequenas nádegas. Desceu as calças, ainda suja de fezes – Se limpa direito, peste! - até os pés. Um gemido ecoou no pequeno quarto. Uma lágrima desceu-lhe o rosto. Procurou o céu, não viu. Uma boca meio torta e velha sorriu-lhe. A mão enrugada foi estendida. Um ósculo sob as vista do Senhor Jesus. – Deus o abençoe! O ânus ardido em sangue era tudo que tinha além de bolinhas de araruta – Que bom homem! E você não quer ir a missa… Peste, ingrato! – dizia a mãe, enquanto enchia a boca, não de espermas, mas de açucarados bolinhos de araruta. Vidinha jogada fora. De fora para dentro. Um pecado sem perdão e dois homens destruÃdos para todo sempre, amém
Texto por Hélio Jorge Cordeiro.
Foto por Paula Mello.
Tags: Conto
