Conversão.

Equilibrava, cegamente, uma insensata razão e uma beata loucura numa infame balança quebrada. Trabalho difícil para uma Têmis desequilibrada, falida e sem espada, suando ensangüentada com uma navalha na mão. Copo d’água meio vazio sobre a mesa. Prozac as dezenas na cabeça cheia. Voluntariamente vendada, desesperava-se com as brincadeiras sem graça de seus malditos análogos: o Caos e as Moiras; colocando pedras e entulhos embolados em mortais fios de vidas mortas, nos distintos lados de seus pratos. Sob a grotesca trilha sonora do titilar das tesouras, Moiras mortificava-se por não saber, ou por não querer saber, o que fazer para sair dali. Será a ignorância uma benção ou uma maldição? Indagava-se. Ora para cá ora para lá, sua balança movia-se num angustiante jogo sádico diante o nefasto olhar de Nix.
Caprichos de Zeus.
Anátema aos contestadores.

Pobre Têmis, párvoa, foi levada à corda-bamba para completar sua provação. “É necessário provar sua fé. – disse Zeus. Eis que te digo: Fidelidade não se conquista… Impõe-se!” Hum… Não lhes concederam indulgência. Aflita, acabou por arrancar a venda com uma das mãos, enquanto a outra, trêmula, tentava manter nivelada a ébria “Libra” infernal. Quando, por fim, viu o que carregava e buscava, ensandecida, conservar em harmonia, desesperançou. E as claras vacilou ao primeiro passo, do ponto mais alto do picadeiro, sacudindo a corda, chacoalhando a balança, atiçando os monstrinhos que se formaram dos entulhos enovelados lançados por seus caros entes. Pesou demais.

Não obstante, tentou seguir em frente, contudo não suportou e deixou-se cair. Queda ou vôo livre? Depende do ponto de vista de quem vê. O fato é que cansou da “brincadeira”. Estendida no chão gotejou, por horas, quimeras e agruras até encolher-se como um grão. Abatido feto de Gaia. Rosa murcha em botão.

Desarmada e aos pés da Nêmisis, de Têmis brotaram raízes de tristeza profunda, enredando-a em seus mais medonhos e secretos sentimentos; ninando-a fizeram-na dormir. Em seu sono viajou a lugares onde a Dor não a conhecia. Nos braços de Morfeu pensou haver reencontrado sua alegre razão, risonha e vestida de uma luz fosca, mas elegante. Pena, não era a sua. Não era a dela a que vinha luzindo, seduzindo-a, oferecendo-se em meio ao ébano a aplacar-lhe a tristeza. Não. Têmis não a quis, pois a tal, ao se aproximar, revelou-se Desilusão. Era ela quem vinha em graciosos e luzentes embaciados sorrisos. Morfeu também a traiu.

Despertou, então, da sua fuga ao som dos festejos de um Nume louco. Paramentou-se de nébrida, libertou os cabelos e os enfeitou com heras. Deu-os ao vento. Assumiu uma nova conversão. Algo que não lhe feria o ser. Algo mais leal e mais justo consigo. De salto quinze e meia arrastão, espalha sua nova e lúdica alegria nas esquinas, no calçadão. Evoé! Agora é Baca.

Por Adriana Kairos.

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Este artigo foi postado Sábado, 4 Julho, 2009 ás 11:33 na edição Edição 24. Você pode acompanhar os comentários assinando nosso RSS 2.0 feed. Você pode deixar um comentário, ou trackback de seu site.

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