Casa.

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Era por volta das 02:15 da madrugada, hora da banda começar a tocar o repertório que sutilmente chuta as pessoas porta afora, lembrando que elas têm um lugar para ir – casa.

“Casa? Casa é onde o coração está” – pensou parafraseando algum filme. Tentou lembrar o nome. Não conseguiu. Estava daquele jeito, você sabe, quando se bebe sob a intenção de esquecer-se de certos fatos, mas a amnésia é aleatória e o que queria se lembrar não consegue, mas a lembrança do que era para esquecer, está lá, e queima.

Começou a tocar Late at Night do Buffalo Tom, foi ao banheiro. Sua boca amargava, não sabia se era do uísque, dos inúmeros cigarros ou das três bocas sem gosto e sem nome que havia beijado.

Olhou-se no espelho e viu que ainda estavam lá, debaixo do brilho do suor do seu rosto emoldurados pelo cabelo desarrumado. Eles, o par de olhos castanhos que já haviam sido enganados, um pouco mais avermelhados, apenas.

Quando voltou para onde estavam seus amigos, a banda tocava Take me Home do John Denver. Gargalhou. A música, as pessoas, o lugar, tudo parecia tão decadente quanto se sentia. Se encaixava.

- “Lar, doce, lar!” – falou em voz alta, e seus amigos aproveitaram a deixa para dizer que já estavam de partida. Era hora.

Despediu-se dos amigos e decidiu que preferiria ficar e pedir outro uísque. No balcão, encontrou o que pensou ser uma das três bocas sem nome e sem gosto, ela propôs que saíssem dali juntos. Vendo aqueles lábios carnudos se movimentarem, se lembrou de um jogo desses malandros de calçada, o qual eles pedem para você escolher algo debaixo de um copinho, e mexem e mexem e mexem, e sempre que você aponta, nunca acerta. Resolveu beijar a boca antes de determinar qualquer coisa e, novamente, vazia, sem sabor.

- Desculpe, baby, fica para outra vez.

A boca saiu praguejando. Pediu uma última dose de uísque servido por uma bar tender carrancuda. Brindando, disse:

- Ao seu sorriso!

- Sorrirei quando você for para casa.

- Mas, eu não sei onde ela fica.

A bar tender já tinha se ocupado com outras coisas. Virou-se e notou que era a última pessoa do local. John Denver tinha feito o serviço, colocou todo mundo para correr. Decidiu que era hora de ir. Sem carona, foi ao ponto de táxi cantando “Country roads, take me home, to the place I belong”.

Entrou no táxi e quando o motorista pediu as direções, pensou em falar: “Siga aquele carro!” como nos filmes de ação, mas apontando para o seu coração. Talvez, o motorista soubesse onde sua casa fosse. Gostou da idéia, mas prefiriu dar as direções como o de costume:

- Vá direto. Direita na próxima. Esquerda. Direita lá na esquina. É aqui.

- Mas, você está no meio do nada.

- Tudo bem, eu vou andando.

- Pode ser perigoso.

- Eu me viro.

Pagou o motorista e seguiu caminhando. Caminhou até os pés doerem e parar defronte uma porta conhecida, a qual, magicamente, suas chaves ainda abriam. Entrou. O mesmo cheiro acolhedor e apático deu as boas vindas. No corredor, prateleiras com os mesmos livros best-sellers que desdenhava. Na sala, perto do som e da TV, os DVDs de comédias românticas patéticas e CDs com canções de R&B e baladas pop. No quarto, a cama de casal ocupada por uma pessoa só.

- Shhhhh…

Disse enquanto colocava o dedo indicador esquerdo nos lábios, os olhos despertaram, refletindo, primeiramente susto, e em seguida, familiaridade. Beijou os lábios. Sentiu a doçura que só o lar, doce, lar proporciona.

- Você está bêbada novamente?

- Nós nunca poderíamos ser amigos. Eu sempre soube disso. – ela disse enquanto desabotoava a camisa.

- Não tenho notícias de você há dois meses. Onde você esteve?

- Paulo Coelho?!?! Me explica como é que você pode ler Paulo Coelho?? – protestou enquanto tirava a calcinha.

- Você está cheirando a cigarro. Voltou a fumar?

- Quando é que você vai aprender a ouvir música de homem de verdade? Levantou a saia e sentou-se em cima dele e, enquanto cavalgava, cantava “I want you, just exactly like I used to and baby this is oon- oon-oon-ly bringin me down”.

****

Já aconchegada do lado dele, perguntou:

- Qual é o filme que diz ‘Casa é onde o coração está’?

- O Mágico de Oz.

- O dos sapatos de rubi?

- É.

- Amanhã vou comprar sapatos novos. Preciso urgentemente.

- Você tem dezenas.

- Sapatos com propósito, não com aparência.

- Você quer começar a fazer exercícios? Quer um par de tênis?

- Não, quero sapatos que me levem pra casa. Não consigo parar de vir aqui.

- Você está em casa. E a minha casa é aqui - ele beijou o sinal de nascença na parte interna da coxa dela.

- Então quero sapatos que me façam parar de querer fugir.

- É, eu procurei. Mas, eles nunca têm o seu número.

Texto por Jana Lisboa. Foto por Egnaldo Oliveira.

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Este artigo foi postado Segunda-feira, 16 Março, 2009 ás 20:09 na edição Edição 09. Você pode acompanhar os comentários assinando nosso RSS 2.0 feed. Você pode deixar um comentário, ou trackback de seu site.

3 Palpites para o artigo “Casa.”

  1. Jana Lauxen escreveu:

    - Não, quero sapatos que me levem pra casa. Não consigo parar de vir aqui.

    - Você está em casa. E a minha casa é aqui - ele beijou o sinal de nascença na parte interna da coxa dela.

    - Então quero sapatos que me façam parar de querer fugir.

    Clap, clap, clap, clap!

  2. eliane escreveu:

    Muito bom.
    Eu pensei que era um homem, e era uma mulher!

  3. sunflower escreveu:

    meuuuuuuuuuuuu texto???

    Meuuuuuuuuuuuu texto??????????

    Como e eu nem sabia?????

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