Pequeno Milagre.


Sentiu as primeiras dores pela manhã. O desconforto rítmico e crescente indicava estar próximo o termo daqueles nove meses desconfortáveis. Vestiu-se com cuidado e arrumou os cabelos em um rabo-de-cavalo. Uma contração mais forte e teve de interromper a tarefa; fechou os olhos com força, sentando-se à beira da cama por alguns instantes, o suficiente para se sentir em condições de prosseguir. Respirou fundo, apanhou a bolsa e a sacola onde guardara as poucas roupinhas do bebê e, quando já se encaminhava para a porta, percebeu que um líquido morno escorria-lhe pelas pernas. Um tanto contrariada, retornou ao pequeno quarto, trocou-se uma vez mais e, após se certificar de que estava tudo em ordem, deixou o modesto cômodo que lhe servia de lar e caminhou lentamente até o ponto de táxi.

O motorista foi simpático, a ajudou com a sacola. Ela, que nunca acreditara muito na gentileza humana, questionava consigo mesma se toda aquela solicitude era própria da natureza daquele homem ou apenas um atributo profissional. Afinal todos os taxistas costumam bajular as clientes, ainda mais quando estas estão grávidas. Reclinou-se um pouco mais no banco traseiro na tentativa de acomodar-se melhor, mas a barriga, imensa e pesada, era quase uma camisa-de-força: os movimentos eram restritos e minimamente confortáveis. O taxista tagarelava uma lengalenga sobre filhos, responsabilidades, alegrias e o que mais havia de maravilhoso no fantástico mundo dos bebês, assunto que absolutamente não a interessava; contudo, constrangia-lhe a hipótese de ser indelicada. Ele está tentando, ponderou. Decidiu abstrair-se nos próprios pensamentos e deixá-lo falar o quanto quisesse - assim ambos estariam satisfeitos.

A decisão de não criar o filho surgira no exato momento em que descobriu carregá-lo no ventre. Era jovem e sozinha; jamais sentira o desejo de ser mãe, sequer tinha vocação para tal. Sempre fora individualista, cética, um espírito livre, em suma. A criança era fruto de uma relação casual, nunca mais ouviu falar no rapaz - talvez nem o reconhecesse na rua caso seus caminhos se cruzassem, tamanha a insignificância daquele encontro. Só que agora havia um bebê que ela não queria, como não quisera o pai. Abortar não era uma opção: nunca fora religiosa mas, em seu íntimo, uma voz lhe confidenciava haver um algo, um alguém, uma força maior orquestrando todos os acontecimentos do universo e que lhe dava a consciência de que não desejar não deveria ser sinônimo de não deixar viver. Era incapaz de fazer uma monstruosidade desse tipo com um inocente. Cuidaria daquela criança até que, finalmente, viesse à luz; então a entregaria a qualquer pessoa capaz de amá-la sincera e incondicionalmente, como ela jamais seria. Firme nesse propósito, fez questão de não tomar conhecimento do sexo do bebê, bem como de não lhe dar um nome e de não tomá-lo nos braços quando, enfim, viesse ao mundo.

***

Ainda se recuperava do imenso esforço do parto quando seus ouvidos perceberam a voz suave que acalentava um recém-nascido nos braços. Entreabriu os olhos lentamente, divisando a figura da enfermeira e da pequena criança, da qual só se visualizavam os cabelos delicados e escuros em meio à imensidão azul da manta que o envolvia. A mulher a fitava diretamente nos olhos, como se esperasse alguma atitude. “Está com fome”, disse, por fim, “precisa mamar” - e lhe entregou o bebê sem esperar resposta, deixando-a sozinha com aquela criança indesejada.

Viu-lhe o rosto pela primeira vez. Era um menino, disseram no momento em que nasceu. O bebê fez uma carinha engraçada, ela sorriu, o achou lindo. Acariciou-lhe o rosto com cuidado; o filho agarrou-lhe um dos dedos da mão, com força, com vontade. Com amor. Para ela, soava como um pedido: não vá, não me deixe ir. Sentiu um nó na garganta, um arrependimento sincero e profundo, tão grande quanto o sentimento estranho e bom que se apossava de seu coração enquanto seu corpo era aquecido pelo calor radiante daquele ser tão pequeno, tão doce, tão puro. Aquele menino acabara de nascer, e já lhe ensinava o que ela não fora capaz de aprender durante uma vida inteira.

Aconchegou-o ao seio e o observou mamar. Uma criança, e era sua. Seu filho. Uma pessoa para amar. Uma pessoa para amá-la. Entre lágrimas e sorrisos, sussurou-lhe um nome, baixinho, no tom de voz que as boas mães intuitivamente empregam para acalentar seus filhos queridos. Tranqüilo, o menino adormeceu sobre o aconchego do colo materno. Uma pessoa para amar. A vida começaria agora.

Por Flávia Brito.

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Este artigo foi postado Segunda-feira, 2 Março, 2009 ás 20:44 na edição Edição 07. Você pode acompanhar os comentários assinando nosso RSS 2.0 feed. Você pode deixar um comentário, ou trackback de seu site.

20 Palpites para o artigo “Pequeno Milagre.”

  1. Jana Lauxen escreveu:

    Já li esse texto umas 6 vezes e em todas me emocionei.
    Mas com a musiquinha, me debulhei em lágrimas aqui.
    Flávia: você reina.

  2. Ninah escreveu:

    Tinha que ser a Flávia.
    O que vou escrever?
    Ah! Ela já sabe…
    Putz. Também chorei.
    Bjos

  3. Gabriela escreveu:

    Estava imaginando outro fim!!!
    (acho q essa era a intenção)

    Emocionante!!!

  4. Liene escreveu:

    Só quem já passou por isso sabe o quanto é real e intenso o amor e a transformação de vida que uma criança pode fazer em nossas vidas. Emocionante.

  5. Ragas escreveu:

    A Flávia é uma escritora fantástica. Tem a melhor escrita que já vi em blogs. Uma consciência e maturidade naquilo que escreve que impressionam.

    Abrazzo Ragazzo

    http://www.vandosquebrados.wordpress.com

  6. Luiz escreveu:

    Como será ser mãe? Como será ser pai? Duas vezes Flávia hoje. Nossa…

  7. Celine escreveu:

    Ownnnn, que fooofo. Enfim, ela descobriu alguem que vai amá-lo incondicionalmente, e o mais sincero amor,

    Beijos, flor

  8. Monday escreveu:

    Eu já li esse seu texto em seu blog e, ao começar a ler de novo, foi muito fácil reconhecê-lo …

    vc sabe, de tanto que já repeti, em versos e prosas, o quanto a sua escrita encanta a quem gosta de uma boa leitura e a quem tem sentimentos à flor da pele … mas estou aqui repetindo novamente, porque acho que sempre valerá a pena dizê-lo aos seus olhos e ouvidos ….

    e quanto a ser mãe, comparo-o a ser pai, mesmo que as mulheres todas que eu conheço digam que não é a mesma coisa, porque só as mulheres sabem o que é ser isso …

    e eu sempre retrucarei, dizendo que só os homens sabem o que é ser aquilo … rsssss

    a única coisa que eu sei é que o amor que sente pelos filhos não têm igual, é como uma parte de você em outro corpo … e acho que é isso mesmo que eles são …

  9. Afobório escreveu:

    palmas, essa garota escreve mesmo.

    sorte e luz.

  10. Nayara escreveu:

    De um sentimento frio e evasivo,
    laços, aprendizados…
    É um fardo, a vida é um fardo,
    no entanto há sempre meios de torná-lo mais leve,
    não é mesmo?

    Muito bom!
    Bjos

  11. eliane escreveu:

    Você é grande, Flavinha.
    Já conhecia esse texto lá do seu blogue.
    Nem posso dizer que ele é um dos mais belos de todos que tu já escreveste, porque todos os teus textos têm algo especial, dentro do assunto focado.
    Prazer enorme te encontrar por aqui.
    beijos

  12. Rafhitch escreveu:

    Flávia que texto maravilhoso esse seu. Eu nunca tinha lido ele. E agora que vim conhecer o mesmo.

    Muito bom, emocionante e nos faz refletir muito sobre a vida.

    Abraços!

    Rafhitch

  13. Keila Costa escreveu:

    Emocionei-me de novo. Escrita bonita, história bonita é esta que a cada releitura; uma descoberta, um sentimento, um pensamento…
    Beijo, Keila

  14. Luciane Pimentel escreveu:

    siplesmente me faltam palavras. lindo!

  15. Marcos escreveu:

    Guria, adora as tuas escritas. É um prazer poder enriquecer-me com tamanha vida que a tua escrita possui. Lindo, qquerida!!!
    Beijos!!!

  16. Rosa Canela escreveu:

    Não existe momento mais perfeito pra ese texto do que o que vivo agora ..e a emoção que ele passa é realmente indescritivel …

    Lindo …sensivel..terno..

    Beijos

  17. guilhermina escreveu:

    Tenho uma filha por adoção e outra por gestação. Um ano e dois meses de diferença entre elas. Enquanto eu descobria uma, a outra crescia no ventre enluarado… costumo dizer a elas que uma me emprestou mãe a outra… pois assim, ao mesmo tempo entendi que o amor é construído e o amor é visceral.

    E Flávia, vc tem toda razão - uma pessoa para amar… é quando a vida começa.
    Belo texto,
    Guilhermina

  18. Fee escreveu:

    Flávia,

    Seu texto é tão comovente! Me fez lembrar minha mãe, que nunca me deixou sentir falta de um pai que não conheci e ainda conseguiu ficar linda e irresistível até que um homem generoso se apaixonasse por ela e, de quebra, me deu um pai de verdade. Eu quase fui abortada e sei que para uma mãe ter coragem de dizer isso a um filho, é necessária aquela confiança que só é construida através de um amor incondicional, o qual eu suspeito que só o de mãe consegue ser e que nunca nos deixa duvidar.

    Realmente é um lindo texto, cheio de verdade, pesca os nossos melhores sentimentos. Parabéns!

    Beijos

  19. Maria escreveu:

    Que texto lindo. Emocionante, emocionante!

  20. Carol Aquino escreveu:

    Como sempre…maravilhoso.
    Lembrei do momento em que segurei o meu pequeno a primeira vez e soube que aquilo sim era AMOR!!!
    Parabens…seus textos são ótimos
    Abraços

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