José
O Despertador toca exatamente às 06h15min. Como todo dia, José aperta o botão ‘soneca‘, apenas para ter aquela falsa sensação de dormir um pouco mais
Rotineiramente, senta-se na cama, fica a velar por alguns longos segundos o sono de sua mulher, beija-lhe a testa, trata de sua higiene, dá uma olhada nos filhos do cantinho da porta entreaberta, come uma fatia de pão com patê, toma em sua caneca “Super Pai” aquele café preto e amargo, enquanto dá longas tragadas em seu cigarro amassado.É um cara comum, estatura mediana, barba rala, olhos de um tom azul-acinzentado que seriam hipnotizantes, se não fosse pelo cansaço que rouba a cena, pele branca com um suave bronzeado de quem anda muito mais do que gostaria. De casa para o ponto-de-ônibus, do ponto para o trabalho, do trabalho para o ponto, do ponto para casa.
José é um bom funcionário, chega no horário, não se atrasa para voltar do cafezinho ou do almoço, coopera com os demais funcionários, faz tudo que lhe mandam e não abre margem para discussões com seus superiores - mesmo que estes estejam absurdamente errados. Seu oficio é como o de muitos, peão de fábrica, horas e horas no piloto automático, exercendo as mesmas tarefas, fazendo exatamente os mesmos movimentos. Tem um chefe abusivo, colegas que tentam puxar seu tapete – reparem que este é velho e surradinho, e não um da pérsia – colegas que passam todas as 9, 10 horas diárias fazendo piadinhas uns com [contra] os outros, e aqueles que se tornaram pela convivência, companheiros, amigos para uma ‘peladinha’ no domingo, um almoço com a patroa, e aquela cervejinha gelada da sexta-feira, que vem no intuito de tirar o stress da chatíssima semana.
José é como qualquer outro José. Lê jornal, brinca com os filhos, vai à missa aos domingos, tira um cochilo depois do almoço, olha sutilmente torto para um casal gay na rua, adoraria que sua filha casasse [e morresse] virgem, não se arriscaria a pular de pára-quedas, acha piercings, tatuagens e afins coisa de gente sem futuro, gosta somente de filmes de ação [jamais assistiria de bom grado, estes mela-cuecas que sua mulher adora] e nunca vai ao teatro [nem vê muita finalidade no mesmo].
Durante o silêncio aterrador da madrugada, José sente um aperto no peito, quase sufocador. Uma dor que vem sabe-se-lá-da-onde, sensações ardidas, desespero, tristeza. Por alguns instantes, ele se dá conta de sua mesmice, dessa vida que não têm altos e baixos, dessa estabilidade total e apática.
Mas então, como bom José que é, diz para si mesmo “Que bobagem é essa homem? Toda noite com essas esquisitices, deixa disso”. Assim passam outras tantas noites, outros tantos sonhos que jamais se encaixariam na sua vidinha patética, onde até o colorido do arco-íris é cinza.
Texto por Daisy Serena. Foto por Giovani Paim.
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